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Indianas focam mercado brasileiro

Elas planejam ganhar mais força avançando na prestação de serviços para companhias nacionais e filiais de players globais

 

A globalização não terminou ainda para as empresas indianas prestadoras de serviços de TI. Após se estabelecerem em dezenas de países com infraestrutura suficiente para suas políticas expansionistas - o Brasil entre eles -, empresas como Tata Consulting Services (TCS), Infosys, Wipro e HCL buscam expandir suas fronteiras. Desta vez, os limites explorados não fazem parte da geografia que pode ser acompanhada em mapas-mundi. Estas corporações com faturamento na casa dos bilhões de dólares tentam explorar novos territórios dentro do próprio negócio e do mercado onde se instalaram.

O resumo da estratégia está bem explicado em uma recente entrevista que o CEO da TCS concedeu ao jornal Financial Times. Natarajan Chandrasekaran argumentou que a empresa almeja ser global em serviços completos e integrados. Por trás deste jargão, os concorrentes podem esperar muito mais ofertas de soluções com qualidade internacionalmente reconhecidas, tudo com preço competitivo (característica destas companhias). Na mira das indianas estão possíveis clientes que planejam expandir negócios para o mercado externo e as corporações globais que pretendem melhorar o posicionamento no Brasil.

O País está na rota das indianas de TI desde 2002, quando a TCS, braço tecnológico do Grupo Tata estabeleceu-se por aqui. A companhia é a maior exportadora de TI da Índia e de longe a mais experiente no mercado brasileiro. A Wipro, outra gigante vinda do oriente, aportou por aqui em 2006, após comprar a Enabler, uma fornecedora de tecnologia do Grupo Sonae, presente no Brasil desde 1997. A Satyam chegou em 2007, almejando o mercado da América Latina. E, em 2009, HCL e Infosys se juntaram às suas conterrâneas. Todas, contudo, ainda mantêm operações modestas se comparadas às de suas matrizes ou à de outros centros de desenvolvimento na Europa e Ásia. São bem menores também que gigantes americanas instaladas no Brasil, como IBM, HP e EDS (comprada pela HP em maio de 2008). Porém, o tamanho delas por aqui não corresponde à presença mundial. Só a TCS tem cerca de 144 mil funcionários espalhados por 42 países e faturamento global de US$ 6 bilhões.

A mais recente destas empresas a mostrar a força de seus planos no Brasil é a HCL, que tem faturamento mundial de US$ 2,5 bilhões. Em setembro, a companhia anunciou a criação do seu centro global de desenvolvimento de TI (delivery center), em São Leopoldo, no Vale do Sinos (RS), um dos polos de excelência tecnológica brasileiros. A instalação da empresa em território nacional é uma prova de que o Brasil virou mesmo destino das indianas de TI. Até então, a HCL concentrava suas operações na Ásia, Europa e América do Norte, empregando 59 mil funcionários.

Os planos da empresa são mais ambiciosos. A expectativa é ser um grande empregador e mudar os rumos dos negócios de TI do País. Na Irlanda, por exemplo, a companhia também iniciou com uma operação parecida com a brasileira há oito anos. Hoje, emprega mais de 9 mil funcionários e domina o mercado de serviços.

Por aqui, a HCL investiu US$ 2 milhões na operação e espera contratar 300 engenheiros para trabalhar no centro até 2012. Sem revelar nomes, a empresa afirma que já atende no Brasil uma grande empresa farmacêutica, uma editora de nível mundial, uma companhia de infraestrutura de telecomunicações e um varejista local. Atualmente, a HCL tem cerca de cem engenheiros. "Nossos planos são de crescer em novas frentes, auxiliando as empresas em seus negócios", diz o CEO, Shami Khorana. O discurso do executivo é bem diferente daquele que fez a fama de companhias indianas. Após terem seu potencial técnico e custos baixos relevados para o mundo durante os trabalhos de adequação para o Bug do Milênio, estas organizações se notabilizaram por oferecerem o chamado body -shop, quando assumem todo o operacional de serviços de TI.

Uma década depois, o modelo mudou. A oferta atual não é a capacidade de assumir trabalhos monumentais. O que elas pretendem oferecer ao mercado nacional é uma chance de entrar na globalização, terceirizando os serviços dos clientes e deixando-os no mesmo nível de controle e qualidade de qualquer player mundial. As indianas acreditam que a experiência em lidar com padrões globais e ferramentas mundialmente aceitas irá seduzir novos clientes por aqui, sejam eles genuinamente brasileiros, com ou sem operações internacionais.

Sem fronteiras

É o que se pode chamar de nova fase da globalização. Seduzidas pelos mercados emergentes, diversas companhias em todo o mundo tiram da gaveta seus planos de atuação no exterior e buscam parceiros que possam ajudá-las a serem viáveis e respeitadas em qualquer país. Nesta seara, entra a virtude das indianas. "Queremos atender os clientes de qualquer lugar e em qualquer lugar", resume o presidente local da TCS, Cesar Castelli.

Essa falta de fronteiras é o ponto central do novo modelo almejado. As empresas indianas já descobriram que os clientes globais não se importam se uma parte do negócio é gerenciada no Brasil, com mão-de-obra irlandesa, desenvolvimento romeno e destinado ao mercado americano que fala espanhol. "Basta que tudo funcione dentro do que foi contratado e com processos entendidos por qualquer pessoa e em qualquer país", diz o diretor da Wipro para América Latina, Fernando Estrazulas.

A Wipro é um exemplo desse novo modelo. O centro de business process em Curitiba (PR) é uma plataforma de TI para seus clientes como a cervejaria Ambev, uma das mais globalizadas companhias brasileiras, com marcas emblemáticas como Budweiser, Stella Artois, Quilmes e Beck"s. A unidade brasileira oferece serviços compartilhados em vários processos de negócio para as operações da holding para toda a América Latina. À medida que o cliente aumenta sua participação em mercados internacionais, a Wipro vai usando sua experiência em lidar com TI ao redor do mundo para facilitar o fluxo de informações e a gestão do negócio.

Trata-se de uma transformação. As empresas de TI indianas se encaminham para transformar as fronteiras em algo sem a menor importância. É um modelo no qual - acreditam as indianas - todos ganham. Os clientes garantem um modelo de infraestrutura e serviços de TI terceirizados e mundialmente reconhecidos; os técnicos têm a chance de trabalharem em projetos internacionais; e as fornecedoras de diminuírem o risco e o custo dos próprios negócios.

O Brasil como plataforma mundial

No modelo global dos serviços terceirizados em TI, o Brasil tem muito a evoluir. O estudo sobre as principais cidades para este tipo de negócio, conduzido pela consultoria Tholons e pela publicação especializada Global Services, não aponta nenhuma cidade brasileira na lista das oito mais requisitadas. No ranking, seis são indianas: Bangalore, Déli, Mumbai, Chennai, Hyderabad e Pune. Completam a lista: Manila (Filipinas) e Dublin (Irlanda). O País só aparece com destaque no ranking geral das nações, sendo a quinta colocada, e na lista das cidades emergentes. São Paulo, na oitava colocação neste quesito, é considerada, pelo estudo, um ótimo local para operações de contact center multilínguas, serviços de gerenciamento de infraestrutura (infrastructure management services), desenvolvimento de produtos e testes. Curitiba (11º),  Rio de Janeiro (21º) e Brasília (41º) também são citadas. Recife, entra como uma das dez aspirantes para, nos próximos anos, figurar no ranking das 50 mais. As líderes, respectivamente, são: Cebu (Filipinas), Xangai, Pequim (ambas na China), Cracóvia (Polônia), Ho Chi Minh (Vietnã), Buenos Aires (Argentina) e Cairo (Egito).

Não há, também, como comparar as forças. TCS, HCL, Wipro, Infosys e suas compatriotas tiveram vendas externas de US$ 47 bilhões em 2008. Por aqui, o volume de exportações de TI foi de US$ 2,2 bilhões no mesmo período. Mesmo assim, o Brasil é considerado um local estratégico pelas indianas. "O País está situado numa conjunção de fusos horários que o torna atraente para qualquer tipo de serviço", aponta Estrazulas, da Wipro.

É uma posição geográfica realmente privilegiada. Vivemos praticamente o mesmo horário comercial dos Estados Unidos, o que facilita a prestação de serviços no período diurno. Porém, se a demanda vem da Índia, nossa vantagem é exatamente a oposta, possibilitando que trabalhos iniciados na matriz dessas empresas possam continuar no que seria noite adentro para eles. "Já para a Europa, é como se acordássemos um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde, o que facilita quando a necessidade é de completar alguma demanda iniciada no horário comercial europeu e que deve ficar pronta no dia seguinte daquele continente", completa.

Essas virtudes e a capacidade de técnicos brasileiros de lidarem com desenvolvimento complexo têm feio o País se consolidar como destino para os serviços tradicionais de outsourcing e offshore. O estudo "The Impact of the Global Economic Downturn on Outsourcing and Offshoring", encomendado pela Sociedade para a Promoção da Excelência de Software Brasileiro (Softex) junto ao Everest Institute, aponta que o Brasil traz grandes vantagens na solidez econômica e na estabilidade social, além de ter boa qualificação da mão-de-obra, principalmente nas áreas bancária, segurança e de telecomunicações. Os desafios futuros ainda são enormes. Neste mundo sem fronteiras para os negócios, que as empresas de TI indianas estão criando, o Brasil tem concorrentes fortes. De acordo com pesquisa elaborada pela consultoria A.T. Kearney, o País deve competir com outros emergentes, como China, Argentina, México e Chile, para dividir os US$ 101 bilhões que serão movimentados no setor em 2010. "O mercado é grande e cabe todo mundo, inclusive, as brasileiras", destaca o diretor da Wipro, Estrazulas. "Basta que elas se posicionem nesse novo cenário globalizado", ensina.

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