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2010: como fica a TI?

Passado o pior da crise, empresas de diversos setores reavaliam planejamentos e muitas preveem executar agora o que foi ser adiado em 2009

 

Setembro de 2008. Esse mês ficará marcado por muito tempo na história da economia global. A quebra do sistema financeiro norte-americano disparou uma das maiores crises dos tempos recentes. Com ela, veio a escassez de crédito, volatilidade cambial, demissões e, como não poderia deixar ser, cancelamento de projetos, congelamento de investimentos, inclusive na área de tecnologia da informação. O período de apreensão teve seu ápice no primeiro semestre de 2009, quando empresas em praticamente todo o mundo mais sentiram os reais efeitos da recessão. Agora, passado mais de um ano do início do colapso, existem sinais de recuperação. No entanto, analistas ainda alertam que ela não se foi por completo.

Ainda assim, para uma boa parcela das empresas o ano que está por vir será, em termos de projetos, aquilo que 2009 não foi. Porém, depois de um período conturbado, o que esperar? As companhias retomarão os níveis de investimento? A luz no fim do túnel estaria acesa e pronta para iluminar os caminhos dos setores mais afetados pela recessão global? InformationWeek Brasil, por meio de entrevistas com CIOs e especialistas na área, saiu em busca destas respostas. Neste momento, o que se pode dizer é que, pelo menos no Brasil, o pior já passou. Mas nada de baixar a guarda, até porque, não existe nenhuma previsão brilhante para o próximo ano.

Entre os setores mais afetados pela crise está o automobilístico. No Brasil, empresas deste segmento ganharam do governo um pacote de ajuda com isenção fiscal e respiraram com mais alívio. O benefício, entretanto, não foi suficiente para que os conglomerados retomassem investimentos, sobretudo em TI. Mineração, construção civil, siderurgia e metalurgia são outros setores fortemente atingidos pelo colapso econômico. Para eles pesou a volatilidade cambial. A cotação do dólar comercial no Brasil passou de R$ 1,91, em 30 de setembro do ano passado, para R$ 2,33 em dezembro. Atualmente, com a moeda norte-americana na casa dos R$ 1,70 - quem reclama são os exportadores. Pelos cálculos do Gartner, entre as verticais que mais reduziram os gastos com TI está um grupo que une agricultura, mineração e construção, com retração de 9,2%. Na média, as compras foram 6,8% menores.

Isso teve um efeito cascata. Companhias de software e hardware amargaram queda nas vendas e lucros. De acordo com o Gartner, os gastos globais com software caíram 2,1% em 2009, ficando em US$ 221 bilhões. Resultado: demissões, milhares delas para ser mais exato.  "Até setembro de 2008, o Brasil vinha crescendo muito e, quando cresce, a gordura fica escondida. Todos investem, seja em infraestrutura de TI ou sistemas, agregam recursos e não dão bola para os gastos. Mas, ao chegar a crise, todos tomaram um susto e as empresas resolveram frear", resume Mario Sacchi, consultor em tecnologia da informação na Booz & Co.

Para o especialista, o que se viu, em termos de economia e que se pode levar para TI, foi uma clara divisão entre dois setores no que diz respeito ao comportamento diante do colapso: indústria e serviços. Este último, embora tenha desempenho muito atrelado ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), traz em sua bagagem serviços essenciais como saúde e alimentação, o que acabou assegurando certo positivismo. Na indústria, entretanto, a história foi outra. "Quando houve o problema, se estabeleceu uma retração total. Só fizeram o estritamente necessário", calcula Sacchi.

Reinaldo Roveri, gerente de pesquisa da IDC, partilha do cenário desenhado pelo especialista da Booz & Co e lembra que houve um momento de análise profunda sobre o real valor de determinados projetos para as empresas. "Elas pararam de investir e descobriram que não tinham métricas para avaliar os projetos. Alguns cancelaram tudo", atesta.

Em Minas Gerais, na sede da multinacional especializada em soldagem Esab, o CIO para América do Sul, Fernando Leite, relembra que em 2009 o segmento siderúrgico sofreu impacto muito grande, assim como o mercado de aço, afetando a companhia. "O primeiro semestre foi muito difícil e a maioria dos projetos ficou congelada", atesta. De acordo com o executivo, o direcionamento agora é executar tudo o que estava planejado para este ano em 2010, mas não há garantia nenhuma de que isto, de fato, vai ocorrer.

Em 2009, entre os poucos projetos executados está o de adequação ao Sistema Público de Escrituração Digital (Sped), algo muito parecido com o que ocorreu em diversas outras organizações, pois se trata de uma regulamentação, que tem de ser cumprida. "Como era obrigatório, não havia como parar. Implantamos com todas as variações (aludindo à Nota Fiscal Eletrônica)." Além disto, a diretoria da Esab demandou um projeto de business intelligence (BI) para fazer o melhor uso possível das informações, um movimento que se mostrou tendência nesta crise. "Ele teve início em novembro de 2008 e foi uma opção da empresa mantê-lo. Para nós, é estratégico, sobretudo, na agilidade de tomada de decisão."

O congelamento de projetos não serviu apenas para a subsidiária brasileira. Leite avisa que na Argentina, também sob sua alçada, tudo ficou paralisado. "Fizemos roll out do ERP (da SAP) em janeiro e depois trabalhamos na estabilização", lembra. O país vizinho era o único que ainda não tinha recebido padronização de sistema de gestão na região. Até mesmo na China, a Esab cancelou iniciativas. "Estávamos com projeto de ERP para uma planta e foi parado. A ação de contingenciamento valeu para todos os países."

Conforme explicou Roveri, de acordo com uma pesquisa realizada pela IDC ainda no primeiro semestre de 2009, com 339 empresas, as companhias priorizaram projetos de regulamentação ou compliance, adoção ou aprimoramento de governança em TI e implementação ou atualização de ERP.  "Existiu um foco em desenvolvimento para tornar a ferramenta de gestão mais poderosa e gerar mais informações", argumenta. Para 2010, a IDC aponta que governança corporativa, BI e sistemas de inovação devem liderar as iniciativas em TI.

Adeus, orçamento

Nem mesmo boas perspectivas de vendas para os próximos meses têm ajudado as empresas a avaliarem uma possível retomada de investimento. A Epcos, por exemplo, grupo alemão produtor de componentes eletrônicos vendido há alguns meses para a japonesa TDK, iniciou a elaboração dos planos para 2010 e, por enquanto, além de fechar a torneira, a ordem é reduzir ainda mais os custos.

Na subsidiária brasileira, instalada em Gravataí, Rio Grande do Sul, o gerente de TI, processos e auditoria interna, Ricardo de Rose, explica que sua empresa foi pesadamente afetada pela crise e existe um motivo óbvio nisso: o maior cliente do grupo é a indústria automotiva, seguida pelas fabricantes de produtos de linha branca, como geladeiras e freezers. A Epcos produz componentes utilizados, por exemplo, na injeção eletrônica de um carro ou mesmo na máquina do vidro elétrico.

"A crise nos pegou muito por conta desse foco. O primeiro trimestre do ano não foi muito bom e o segundo trimestre, bem ruim. Com isto, tivemos corte geral em desenvolvimento e investimento; não apenas em TI. Atendemos apenas às obrigações fiscais com NF-e e Sped", comenta. O orçamento de 2009 não sofreu corte - era preciso manter a casa funcionando -, mas a equipe de De Rose foi reduzida de 16 para 12. Além disto, ele garante ter gastado menos do que o previsto pela intensa renegociação de contratos, procedimento comum às corporações nos últimos meses.

Como a empresa está em processo de fusão, De Rose ainda não sabe como será 2010 em relação a projetos, ele acredita que haverá demanda em termos de segurança e também atualização do sistema de gestão para o processo de integração. Mas uma confirmação tem: o orçamento será reduzido em pelo menos 32%, mesmo com a fábrica brasileira estando com pedidos para os próximos três meses. "Há expectativa de melhora do mercado, mas o horizonte não é tão grande e a empresa não quer extensos projetos antes do retorno do mercado, mas a fusão pode demandar."

De acordo com a consultoria Booz & Co., a realidade pintada por de Rose, da Epcos, deve se tornar uma constante. Isso porque, acreditam os analistas, como as empresas perceberam que seus departamentos de tecnologia conseguiram seguir com o barco com menos pessoas e menos dinheiro, dificilmente, retomarão os níveis anteriores de investimentos e mesmo de equipe.

"Se consegue fazer e manter infraestrutura, por que aumentar o custo?", questiona Renata Serra, diretora para estratégia de TI da Booz. "Eles enxugaram tudo o que podiam, partiram para novos modelos como SaaS (sigla em inglês para software como serviço). É mais fácil fechar a torneira. Será muito difícil retomar os índices, mas depende muito do setor. Os bancos, por exemplo, têm custo para integrar tecnologia até por conta das fusões." Renata lembra que isso não significa que as companhias deixarão de investir, mas que estarão focadas no que é estritamente necessário, ou seja, mobilidade, automação e outros tipos de projetos só entram em pauta se estiverem realmente alinhados com a estratégia ou produzirem redução de custo ou ganho de produtividade.

Com muita cautela

O próprio Gartner coloca entre as tecnologias prioritárias do ano que vem computação em nuvem e virtualização de servidores, componentes com forte potencial de redução de custos e otimização da infraestrutura. A consultoria cita ainda o grupo de tecnologias de análise avançada, onde estão BI e business analytics, cujos projetos, inclusive, foram adiantados por muitas companhias mesmo com orçamentos enxutos durante a crise.

Um levantamento do Forrester Group aponta que o Brasil encerrará o ano, apesar da crise, como terceiro maior mercado de TI nas Américas, com US$ 25 bilhões em compras de bens e serviços. No entanto, este valor reflete uma queda de 5% em comparação com 2008. Para 2010, a consultoria prevê avanço de 5%.

Para Roveri, da IDC, voltar a exercer os níveis de gastos que se assistiram em 2008 será algo muito complicado e não porque as companhias deixarão de investir, mas justamente porque, como declarou Renata, da Booz& Co., o foco estará em projetos que tragam resultados claros - e em um prazo mais curto. "É uma tendência que vem se desenvolvendo nos últimos anos. O próprio conceito de computação em nuvem refere-se à entrega de TI usando apenas o necessário e tem como um dos pilares a virtualização que consiste em usar o recurso ocioso - e recurso ocioso é dinheiro perdido."

Até a rede de fast-food árabe Habib"s teve seu momento de temor. Como explica o CIO, Geraldo Espírito Santo, o primeiro semestre foi um período de avaliação e muita cautela. Os executivos do grupo ainda estavam reticentes com o andar da economia e temiam iniciar projetos de grande porte e necessitar de paralisação mais à frente. "Cancelamento em si não houve, porque todos estavam aprovados, mas, no começo do ano, alguns ficaram em espera. Se tínhamos dez, não fizemos todos, focamos apenas naqueles que eram estratégicos para a corporação", comenta. O que eles chamam de projetos não-críticos ficaram para uma segunda etapa e, provavelmente, serão executados em 2010.

Mas, ainda assim, o CIO conseguiu implementar sistemas de controles para o programa de universidade corporativa da empresa, incrementando as funcionalidades do portal, onde os funcionários podem consultar os cursos disponíveis e as notas. A ideia, para o futuro, é deixar o conteúdo disponível por meio deste canal.

No azul

Durante a recessão econômica, um dos setores no Brasil que menos sofreu foi o financeiro, diferente do que ocorreu no restante do mundo. Prova disto é a intensidade de projetos e demandas de TI. Na Caixa Econômica Federal (CEF), a vice-presidente de TI, Clarice Coppetti, anda com a agenda cheia, mas contingência de orçamento ou cancelamento de projetos, por conta da crise, não estiveram na pauta do banco.

A executiva explicou que em 2009 houve uma reprogramação de projetos, devido a questões estratégicas, sobretudo, a novas demandas oriundas de projetos como Minha Casa, Minha Vida (de moradia popular) e crédito empresarial (a CEF sempre manteve grande foco em empréstimo para pessoa física). "Nosso investimento até cresceu, vamos ultrapassar os 100% do previsto. Como diminuiu o crédito no mundo, a Caixa e outros bancos públicos tiveram demanda muito superior e, então, readequamos produtos. Tudo isto mexe com os sistemas", detalha.

O projeto de moradia também consumiu boas horas de trabalho, porque, como adiantou Clarice, até o ano que vem, devem ser liberados um milhão de financiamentos pelo programa do governo federal. "O crédito imobiliário é complexo. Um empréstimo tem prazo de 36 a 60 meses, já no imobiliário podem ser 30 anos. A demanda cresceu 6% e estamos expandindo ambientes para nos prepararmos para a onda que virá."

Mesmo com tudo isso em mente, a executiva já pensa em 2010 como um ano em que deverá focar boa parte do esforço na implantação de um sistema de gestão de atendimento do ponto de venda, que acontecerá também por conta da demanda por crédito em todas as suas vertentes (pessoas física e jurídica e imobiliário). Nos planos da VP, há ainda um projeto de automação de processos na retaguarda com uso de imagens. Ela está aficionada para reduzir o máximo possível a circulação de papel na Caixa.

O momento vivido pela CEF reflete também a situação do setor. E a mensagem que vem dos bancos entrevistados é que está tudo azul para eles. O Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul) não foge a regra: além de investir, ele ampliou o orçamento de R$ 150 milhões para R$ 230 milhões entre 2008 e 2009. Para o vice-presidente de TI da instituição, Rubens Bordini, o banco está capitalizado e possui um sistema de gerenciamento que permitiu "navegar bem" durante a turbulência econômica, fazendo com que as coisas andassem conforme o programado.

Um dos grandes projetos do banco gaúcho, neste ano, foi o de Débito Direto Autorizado (DDA), que está correndo bem, de acordo com o executivo. Sem contar as demandas rotineiras, como ampliação de capacidade ou ajustes de soluções devido ao crescimento da base de clientes, já que o banco também teve forte atuação na concessão de crédito. Com a cabeça em 2010, ele avisa que ainda em dezembro ocorrerá uma licitação para renovação do data center. "O vencedor terá cinco meses para entregar o projeto e a execução deve ocorrer em um ano."

O Banrisul assistirá ainda a consolidação e virtualização de servidores e à ampliação da gama de clientes de cartões com chip MV PKI. Eles fazem parte de um projeto mais amplo de integração com mais de 700 serviços públicos do Estado do Rio Grande do Sul. "Os funcionários públicos, por exemplo, assinarão documentos digitalmente." Desde setembro, de acordo com dados da conjuntura econômica brasileira, o País está livre da recessão. Na ocasião, o governo havia anunciado crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,9%. Isto não significa, entretanto, que as companhias estão ou irão entrar em ritmo de festa. Como é possível sentir nos próprios entrevistados para esta reportagem, com exceção dos bancos, o clima de cautela deve prevalecer por algum tempo, provavelmente, até o fim do primeiro semestre de 2010.

"No ano que vem, as empresas voltarão a investir, mas haverá direcionamento setorial. Hoje, o que mais puxa a demanda no mercado é a Petrobras. O momento é bom para o País e saímos antes da crise. No caso dos bancos, há planejamento de longo prazo e a automação faz parte do serviço deles", reflete Paulo Tigre, professor titular de economia industrial do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A própria Booz & Co. não se mostra tão otimista com o primeiro semestre do próximo ano. A consultoria acredita no crescimento econômico, na melhora do ambiente mundial, mas não aposta na retomada dos gastos para os níveis de investimento anteriores à crise. Eles apontam ainda que, além de manter estrutura e renegociação de contratos, os CIOs e suas respectivas companhias sairão em busca, cada vez mais, de modelos mais econômicos como o próprio SaaS. Mesma visão da IDC: "2010 não será um ano de explosão de investimentos. A maioria focará em governança e na redefinição de infraestrutura para investir a partir de 2011. Além disso, será ano eleitoral, o que já traz um conservadorismo maior", conclui Roveri.

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